“86. 86 é o exato número de vezes em que eu pensei em te tirar da minha vida. Algumas vezes por brincadeira, como quando você revirava os olhos e dizia que odiava Harry Potter, e eu retrucava dizendo que então nós nunca daríamos certo. Não sei o quanto de brincadeira e o quanto de instinto continha minha fala. Outras simplesmente por quando você me deixava tão desesperadamente feliz que eu tinha certeza que tudo era apenas uma fantasia criada pelo subconsciente, e eu não iria alimentá-la. Mas, infelizmente meu amor, muitas delas foram a sério.
Eu prometia a mim mesma que não te deixaria voltar. Mas era só você aparecer com aquela voz manhosa e carinha de anjo, que todas as minhas forças e certezas se diluíam. E eu sempre sabia, no fundo, ao me convencer da necessidade de sua ausência mais uma vez, que eu acabaria por ceder. Menos da última.
86 vezes, e é a primeira que eu te sinto ir embora.
A tua partida, meu bem, parece levar tudo de mim. Todas as forças e todos os sorrisos. Estranho pensar que depois de tantas vezes da mesma decisão, o que deveria nos deixar mais seguros dela, mais fortes, é exatamente o contrário que acontece. Como se a cada uma, mesmo as mais bobas vezes, levasse um pedacinho de mim. E a última me levou você, a única perda que eu não conseguiria suportar.
Caminho pela rua no meio da madrugada com um cigarro distraidamente nas mãos. Ninguém sabe que estou aqui. E ainda assim, esse sentimento de solidão nem faz cosquinha na solidão que você deixou em mim. Acho que depois de experimentar o amor, puro e verdadeiro, nenhuma outra sensação conseguiria amortecer a tua falta.
Continuo andando cada vez mais rápido no escuro e consigo sentir meu peito se esvaziando de você, sendo substituido pouco a pouco pelas sombras que me cercam, até limpar todo amor que já tenha me devorado. Me sinto gelada até os ossos, mas dou um sorriso sinistro. Apesar de não ter conseguido cumprir minha primeira promessa a você, meu anjo, de te fazer feliz, eu cumpro a última.
Te tirar da minha vida mesmo que isso custe ela toda.”
